Foi com profunda tristeza que tomámos conhecimento do falecimento de Charles Buchanan, personalidade maior do relacionamento entre Portugal e os Estados Unidos da América, e cuja ação à frente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), entre 1988 e 2013, deixou um legado marcante e duradouro.
Charles Buchanan foi muito mais do que um administrador competente e dedicado. Foi um verdadeiro amigo de Portugal e um construtor incansável de pontes entre comunidades científicas, académicas e institucionais dos dois lados do Atlântico. A sua ação visionária traduziu-se num florescimento notável da cooperação luso-americana em áreas estratégicas como o Espaço e o Oceano — domínios onde os desafios globais exigem parcerias de longo alcance, alicerçadas na confiança, no conhecimento partilhado e numa curiosidade científica genuína.
Como recorda o nosso colega Ricardo Serrão Santos num texto escrito para o livro FLAD – 25 anos, publicado em 2010, o seu primeiro contacto com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento deu-se no início dos anos 90, numa reunião em Lisboa dedicada às ciências do mar. Foi nesse encontro que conheceu Charles Buchanan — um momento que viria a marcar o início de uma longa e frutuosa relação de colaboração e amizade. Apesar da reunião estar centrada nos estuários e zonas costeiras, o Ricardo optou por sublinhar a importância do mar profundo e dos grandes domínios oceânicos — temas que à época poderiam parecer deslocados do foco principal da discussão. Charles Buchanan, porém, revelou desde logo uma das qualidades mais notáveis do seu carácter: escutou com atenção, compreendeu o alcance das propostas e abriu portas. Esse gesto inaugural foi revelador da sua abertura ao diálogo, da sua intuição para reconhecer o potencial de ideias emergentes e da sua extraordinária capacidade de mobilizar recursos, vontades e instituições para lhes dar corpo.
Sob a sua liderança, a FLAD apoiou numerosos projetos pioneiros no ex-DOP da Universidade dos Açores em colaboração com instituições científicas de referência como o Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, o Instituto Smithsonian ou o Woods Hole Oceanographic Institute. Estes projetos resultaram em produção científica relevante e inovadora, incluindo estudos sobre a biodiversidade de peixes mesopelágicos, a bio aumulação de metais pesados, e até trabalhos de carácter histórico-naturalista sobre as ligações entre os Açores e a ciência norte-americana no século XIX.
Charles Buchanan foi também uma figura-chave na promoção de programas doutorais e pós-doutorais com impacto estrutural na ciência marinha portuguesa. Apoiou o desenvolvimento de tecnologias de biotelemetria acústica para o estudo de espécies piscícolas nos Açores e promoveu colaborações de excelência com universidades norte-americanas como a de Harvard, do Hawaii, a de Santa Barbara ou a Stony Brook University. No domínio da biotecnologia marinha, a sua visão foi igualmente instrumental, permitindo avanços na investigação de moléculas de defesa em organismos hidrotermais com aplicações biomédicas.
Estas colaborações não teriam sido possíveis sem o espírito mobilizador e o profundo sentido humano de Charles Buchanan. A sua liderança era feita de proximidade, escuta e uma curiosidade intelectual que transcendia fronteiras. Em cada gesto seu, vislumbrava-se a convicção de que o conhecimento partilhado é um dos pilares mais sólidos da amizade entre nações.
O seu apoio ao Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP), ao IMAR e a tantas outras instituições portuguesas foi sempre pautado por uma generosidade rara, mas também por um rigor e um entusiasmo contagiante que inspirava todos os que com ele colaboravam.
Neste momento de pesar, prestamos homenagem a um homem que, com discrição e grandeza, marcou indelevelmente o panorama científico português. A sua memória perdurará nas instituições que ajudou a fortalecer, nas pontes que ajudou a construir, e em todos os que, como nós, tiveram o privilégio de o conhecer e com ele trabalhar.
A sua ausência deixa um vazio difícil de preencher. Mas o seu exemplo e legado continuam a desafiar-nos — como o próprio Charles gostava — a pensar mais longe, a colaborar mais profundamente e a não termos medo de propor novos caminhos.
À sua família e amigos, bem como a toda a equipa da FLAD, endereçamos as nossas mais sentidas condolências.