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Posted at 28 Mar, 2025

Voto de Pesar pelo falecimento de Charles Buchanan (1934–2025)

Foi com profunda tristeza que tomámos conhecimento do falecimento de Charles Buchanan, personalidade maior do relacionamento entre Portugal e os Estados Unidos da América, e cuja ação à frente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD), entre 1988 e 2013, deixou um legado marcante e duradouro.

Charles Buchanan foi muito mais do que um administrador competente e dedicado. Foi um verdadeiro amigo de Portugal e um construtor incansável de pontes entre comunidades científicas, académicas e institucionais dos dois lados do Atlântico. A sua ação visionária traduziu-se num florescimento notável da cooperação luso-americana em áreas estratégicas como o Espaço e o Oceano — domínios onde os desafios globais exigem parcerias de longo alcance, alicerçadas na confiança, no conhecimento partilhado e numa curiosidade científica genuína.

Como recorda o nosso colega Ricardo Serrão Santos num texto escrito para o livro FLAD – 25 anos, publicado em 2010, o seu primeiro contacto com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento deu-se no início dos anos 90, numa reunião em Lisboa dedicada às ciências do mar. Foi nesse encontro que conheceu Charles Buchanan — um momento que viria a marcar o início de uma longa e frutuosa relação de colaboração e amizade. Apesar da reunião estar centrada nos estuários e zonas costeiras, o Ricardo optou por sublinhar a importância do mar profundo e dos grandes domínios oceânicos — temas que à época poderiam parecer deslocados do foco principal da discussão. Charles Buchanan, porém, revelou desde logo uma das qualidades mais notáveis do seu carácter: escutou com atenção, compreendeu o alcance das propostas e abriu portas. Esse gesto inaugural foi revelador da sua abertura ao diálogo, da sua intuição para reconhecer o potencial de ideias emergentes e da sua extraordinária capacidade de mobilizar recursos, vontades e instituições para lhes dar corpo.

Sob a sua liderança, a FLAD apoiou numerosos projetos pioneiros no ex-DOP da Universidade dos Açores em colaboração com instituições científicas de referência como o Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, o Instituto Smithsonian ou o Woods Hole Oceanographic Institute. Estes projetos resultaram em produção científica relevante e inovadora, incluindo estudos sobre a biodiversidade de peixes mesopelágicos, a bio aumulação de metais pesados, e até trabalhos de carácter histórico-naturalista sobre as ligações entre os Açores e a ciência norte-americana no século XIX.

Charles Buchanan foi também uma figura-chave na promoção de programas doutorais e pós-doutorais com impacto estrutural na ciência marinha portuguesa. Apoiou o desenvolvimento de tecnologias de biotelemetria acústica para o estudo de espécies piscícolas nos Açores e promoveu colaborações de excelência com universidades norte-americanas como a de Harvard, do Hawaii, a de Santa Barbara ou a Stony Brook University. No domínio da biotecnologia marinha, a sua visão foi igualmente instrumental, permitindo avanços na investigação de moléculas de defesa em organismos hidrotermais com aplicações biomédicas.

Estas colaborações não teriam sido possíveis sem o espírito mobilizador e o profundo sentido humano de Charles Buchanan. A sua liderança era feita de proximidade, escuta e uma curiosidade intelectual que transcendia fronteiras. Em cada gesto seu, vislumbrava-se a convicção de que o conhecimento partilhado é um dos pilares mais sólidos da amizade entre nações.

O seu apoio ao Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores (DOP), ao IMAR e a tantas outras instituições portuguesas foi sempre pautado por uma generosidade rara, mas também por um rigor e um entusiasmo contagiante que inspirava todos os que com ele colaboravam.

Neste momento de pesar, prestamos homenagem a um homem que, com discrição e grandeza, marcou indelevelmente o panorama científico português. A sua memória perdurará nas instituições que ajudou a fortalecer, nas pontes que ajudou a construir, e em todos os que, como nós, tiveram o privilégio de o conhecer e com ele trabalhar.

A sua ausência deixa um vazio difícil de preencher. Mas o seu exemplo e legado continuam a desafiar-nos — como o próprio Charles gostava — a pensar mais longe, a colaborar mais profundamente e a não termos medo de propor novos caminhos.

À sua família e amigos, bem como a toda a equipa da FLAD, endereçamos as nossas mais sentidas condolências.


Created by

Daniela Cruz

Last update

28 Mar, 2025 09:54:35

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